Me apaixonei pela narrativa de Paula Hawkins quando li A garota do trem. Em águas sombrias só me fez confirmar que essa paixão não é infundada. Dos livros dela, sempre gosto desse drama criado em cima de personagens comuns e muito, muito reais. Quem não se reconhece na Rachel, que fica completamente fora de orbita quando seu relacionamento termina? A gente não precisa virar uma stalker meio louca como ela para entender que um término pode ser um gatilho para comportamentos corrosivos e saber que a Rachel está mais perto da nossa realidade do que gostaríamos é perturbador mas envolvente de um jeito meio inexplicável. Em águas sombrias, é claro, segue essa linha.
Jules é uma mulher que não esperava ter que voltar para a cidade em que cresceu. Ela simplesmente não queria que isso fosse necessário. Suas lembranças daquele lugar são envoltas em dor, tanto na infância quanto na adolescência. Ela fugiu de sua família e dessas dolorosas lembranças pelo tempo que pode, mas a morte de sua irmã a obriga a retornar àquele que era o berço de suas memórias mais terríveis.

Além disso, Jules tem que saber lidar com o que acontece em decorrência da morte de sua irmã, que se aparentemente se suicidou no Poço dos afogamentos, um lugar pelo qual sempre fora obcecada. Nel, sua irmã, tem uma filha adolescente que precisa de apoio nesse momento de fragilidade, em que se sente abandonada pela mãe e, de certa forma, traída. Mas, como se isso não fosse o suficiente, tem um detalhe que a perturba acima de tudo: outras mulheres morreram afogadas naquele poço, que carrega a história e os motivos de todas elas. Qual será o motivo da morte de Nel?

O livro, dividido em capítulos pequenos e narrados por diversos personagens, nos passa uma ideia um pouco desconexa do início. Imagine tentar juntar os pedaços de uma história contados por muitas pessoas e suas perspectivas, enquanto você quer muito descobrir o mistério por trás da morte de Nel, porque é isso que acontece. Mas logo percebemos que todas aquelas narrativas e histórias são pequenas peças de um quebra-cabeças gigante que é esse livro.

Aos poucos, uma característica da narrativa de Paula Hawkins, vamos descobrindo detalhes que, ao final, se revelarão. Uma traição aqui, uma mentira boba ali, um relacionamento abusivo acolá… Todos nos levam a entender melhor o que é o Poço dos afogamentos e o que está por trás da morte de Nel.Se prepare para um livro um tanto agoniante e meio que enlouquecedoramente envolvente, O Poço dos afogamentos é mais que um lugar de suicídios. Por trás dessas mortes estão histórias de mulheres que, assim como qualquer outra (assim como eu) carrega em si todos os julgamentos que a sociedade impõe. Afinal de contas, chegar a conclusão que a morte é a melhor opção não é a escolha mais fácil, é a mais difícil – e frente a situações complicadas como a pressão por ser perfeita, dificuldades familiares, relacionamentos tóxicos… ela parece ser a única.

É um livro emocionante, cheio de histórias envolventes que, quando te pegam, não te deixam largar o livro até que ele acabe. Maravilhoso.