‘”Quando eu era menina e me dava fome, eu simplesmente ficava parada na frente das confeitarias”, minha mãe disse. “Como se olhar fosse me encher a barriga. Um dia eu comi uns picles e fiquei com diarreia.”

“Acho que isso ensinou a senhora a não roubar mais”, eu disse.

“Roubar é sempre errado”, ela disse.

“Morrer de fome é sempre errado”, eu disse pra ela.’

 

Aron é um menino que deveria ter tido outros nomes, assim dizem seus familiares. Para os mais chegados, ele respondia pelo nome de Shemaiá. Arteiro, mas de coração bom, Aron poderia ter sido uma criança comum, com uma infância comum, vindo de uma família comum e ter vivido em um lugar comum. Mas, criar um relato ficcional sobre a normalidade de uma infância saudável e feliz não é a intenção de Jim Shepard.

De família pobre e judia, o menino acabou se mudando da Lituânia para Varsóvia, na Polônia, após seu pai conseguir um emprego em uma fabrica. O que ninguém sabia era que, pouco tempo depois, a Alemanha nazista invadiria o país e daria inicio a Segunda Guerra Mundial e ao Holocausto Judeu.

Obrigado a ir morar no Gueto Judeu, Aron vai perceber que não há mais tempo para suas travessuras, nem mesmo para estudar, quando você tem que ajudar a prover comida para sua família, fugir da SS e tentar se livrar dos piolhos que fazem sua cabeça coçar sem parar. Shemaiá e seus amigos aprenderão a negociar com pessoas dentro e fora do Gueto, vão subornar policiais e vão contrabandear todo tipo de coisas.

Conforme a Guerra avança e a politica anti-semita nazista vai ficando mais dura, a situação no Gueto piora. A fome e as doenças assolam as pessoas e afetam a família do menino. Quando ele se vê órfão e completamente abandonado, ele vai ser acolhido e receber ajuda de um médico chamado Korczak, figura famosa na Polônia por causa de seu programa radiofônico O Velho Doutor, responsável por um dos orfanatos do Gueto de Varsóvia.

A história de Aron é ficcional, mas foi construída e concebida através de uma vasta pesquisa. Jim Shepard escreve com propriedade sobre o assunto e, com muita bravura, entrega um relato tão realista que vai deixar muitos leitores chocados e de coração partido com tamanha crueldade. A narrativa do livro é em primeira pessoa, e por muitas vezes, o autor consegue se expressar exatamente como uma criança ao contar uma história, deixando, assim, tudo ainda mais real.

O Livro de Aron não carrega em si uma história feliz, mas sim, uma história necessária. Nós precisamos ver a Guerra, a fome, a morte, a solidão através dos olhos de uma criança. Nós precisamos nos colocar no lugar dessa criança. Nós precisamos entender o que é perder a inocência, a magia, a felicidade; o que é perder a infância, o período mais feliz da vida de um ser humano, por causa do ódio, do preconceito, da ganancia.

Este é um livro ficcional sobre fatos reais. O livro sobre a vida de uma criança chamada Aron, um personagem ficcional. Mas, quantos livros como este poderiam ter sido escritos sobre a vida de crianças reais? De crianças que morreram nas cidades atacadas, nos Guetos, nos campos de concentração. E quantos livros irão ser escritos sobre a vida das crianças que morrem na Síria, na Líbia, no Congo? E sobre as crianças que morrem ao fugir das guerras e morrem das praias da Grécia, da Turquia, da Itália?

 

‘”Eu nunca te mostrei a minha Declaração dos Direitos das Criança”, disse Korczak …

… Eu estava chorando desesperado e molhei o rosto dele, mas ele só se aproximou mais. “A criança tem o direito de ser respeitada”, ele disse. “A criança tem o direito de se desenvolver. A criança tem o direito de ser. A criança tem o direito de lamentar sua sorte. A criança tem o direito de aprender. E a criança tem o direito de cometer erros.”‘