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Lembro de ler Feliz Ano Velho no início da minha adolescência, numa edição que minha mãe lera em sua juventude. O livro, pra mim, tem todo um toque sentimental, já que é um dos poucos que compartilhei a leitura com a minha mãe e um dos primeiros com uma história mais adulta que li. Assim, quando vi que a Alfaguara iria publicar uma continuação, não pude me conter. Precisava ler esse livro.

Enquanto no primeiro livro o autor conta sobre sua vida, a recuperação do acidente que o deixou tretaplégico, e passando sem profundidade em assuntos que são relacionados à ditadura, nessa continuação o autor aprofunda sua história com descobertas feitas pela Comissão da Verdade e com as manifestações populares atuais que vinham pedindo pelo retorno da ditadura militar. Assim, Marcelo conta a história de sua família e, principalmente, de seu pai, que foi torturado e morto pelo regime militar e de sua mãe, que hoje tem Alzheimer, mas que no passado precisou se reinventar mais vezes do que o normal.

Ainda estou aqui é um livro forte que não permite que uma pessoa o leia e continue indiferente. O autor, sem rodeios, mostra os horrores do que pode ser considerado um dos momentos mais cruéis da história do nosso país. Ele mostra como seu pai, que era deputado, não teve nenhum envolvimento com os militares nessa época, já que fora exilado, e como mesmo assim, ao voltar ao Brasil, ele foi capturado, torturado e morto – o que só foi confirmado em 2014, pela Comissão da Verdade.

Mas é sua mãe, Eunice Paiva, que é a grande personagem dessa história. Aos 41 anos, ela precisou cuidar sozinha de seus cinco filhos, enquanto seu marido era considerado um enigma. Para todos os efeitos, ele estava morto, mas judicialmente ele estava vivo. Assim, seus bens não podiam ser vendidos, o dinheiro da poupança não podia ser acessado, e a família é obrigada a viver em um limbo. E é assim que Eunice decide estudar Direito. Ela acaba se tornando defensora dos Direitos Humanos e passa a fazer de sua luta a denúncia de desaparecimentos e torturas feitas pelos militares e defendendo o direito dos povos indígenas.

Ainda estou aqui é impactante e profundo, abordando uma temática complexa e triste, com personagens reais e suas histórias cruas. É devastador perceber como esse universo marginal das torturas por parte das forças militares se mantém, até hoje, em plena existência, e como ainda tentam mascarar essa realidade. É um livro impactante e inesquecível, que te faz refletir a cada página.