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Por Lugares Incríveis, já começo avisando, foi uma das minhas leituras preferidas NA VIDA. Terminei o livro há dois meses, então não é uma questão de estar com as emoções a flor da pele, nem de ainda não ter superado todos os sentimentos que essa narrativa trouxe. É simplesmente – na verdade, não tão simples assim – a reação merecida a uma história tão bem construída, tão bem desenvolvida. Esse é um livro maravilhoso.

Com uma narrativa em primeira pessoa, alternada entre os dois protagonistas – Finch e Violet – conhecemos um pouco da vida dos dois a partir do momento em que eles se conhecem, no alto da torre do colégio em que estudam. Violet sempre fora a típica adolescente – um tanto popular, um tanto divertida, um tanto feliz. Sua vida mudou completamente quando sua irmã mais velha morre em um acidente de carro, um ano atrás. Finch, por sua vez, sempre foi diferente de todos: conhecido como “Aberração”, Finch sempre muda de visual, de humor, de personalidade – e tem uma certa fixação sobre suícidios. Pelo menos essa é a verdade que ele deixa que o mundo conheça.

O que percebo agora é que o que importa não é o que a gente leva, mas o que a gente deixa.

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— Do que você mais tem medo?
— De morrer. De perder meus pais. De ficar aqui pro resto da vida. De nunca saber o que deveria fazer. De ser comum. De perder todos que amo.

Violet mal pode esperar pelo momento em que vai sair daquela cidadezinha que parece a oprimir mais que qualquer outra coisa no mundo. Principalmente desde que sua irmã – e melhor amiga – morre, e ela vê seus planos serem desmaterializados e sua vida ficar sem nenhum sentido. Ela não faz ideia do que fazer com sua vida – e com a dor que sente dentro do peito e parece nunca ir embora. Finch nunca foi do tipo sociável, é perseguido pelos populares valentões, não tem amigos e tem que enfrentar a indiferença de sua família, a violência que parece ser intrínseca a seu pai, e a depressão que é intrínseca a ele mesmo.

Os dois se conhecem na torre da escola e, mesmo sem saber, tem o mesmo propósito: ambos estavam imaginando, por razões completamente diferentes, como seria se suicidar. Quando se encontram lá em cima, os dois descobrem que tem outro destino a seguir além de pular lá do alto. E, por causa de um trabalho de geografia, os dias dos dois são entrelaçados e eles se vêem com muito mais em comum que uma tentativa de suicídio.

Não tem problema rir, sabia? A terra não vai se abrir. Você não vai pro inferno. Acredite.

Um dos milhares de motivos para se amar Por Lugares Incríveis é, sem dúvidas, a narrativa de Jennifer Nilsen. Conseguindo trazer temas complexos, profundos e reais para uma narrativa que, ora nos faz rir, ora nos faz refletir, a autora conseguiu tratar de assuntos intrincados e intensos de uma forma tão bem construída que não existe alternativa para o leitor além de mergulhar nessa história – e tentar não se afogar nesse mar de sentimentos do qual é impossível fugir.

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Ficar pedindo desculpa é perda de tempo. Você tem que viver sem arrependimentos. É mais fácil fazer a coisa certa desde o início pra que não tenha que pedir desculpas depois.

Finch, mesmo sendo uma pessoa depressiva, é divertido e irônico, fascinante e carismático e, inesperada e maravilhosamente, é a pessoa que ajuda Violet a voltar a viver. É justamente por causa dessa amizade que Violet volta a ver a vida além da tristeza que sempre a cerca. Ao mesmo tempo, Finch encontra em Violet alguém com quem ele pode ser ele mesmo – não as várias versões que ele cria e deixa que o mundo conheça.

Além de personagens e narrativa maravilhosos, a autora incluiu pequenos detalhes ao longo do enredo que guiavam o leitor, de forma quase imperceptível, para o final surpreendente, de forma que, quando tudo acaba, você entende o que aconteceu – mesmo que não queira. As reflexões – nas entrelinhas e nos próprios diálogos – nos fazem perceber além – além dos personagens e seus conflitos, além do que está estampado em letras escuras naquelas páginas. A evolução pela qual os personagens passam nessa história é incrível e nos faz refletir ainda mais sobre nossa relação com o outro – sobre comos deixamos transparecer o que queremos, e nem sempre o que se vê é a verdade completa.

Aprendi que existem coisas boas no mundo, se você procurar por elas. Aprendi que nem todo mundo é uma decepção, incluindo eu mesmo, e que um salto a 383 metros de altura pode parecer mais alto que uma torre do sino se você estiver ao lado da pessoa certa.

Ver o olhar de Finch para cada um dos lugares que ele e Violet exploram é uma inspiração,  e me fez começar a perceber mais do que está ao meu redor. O modo como ele via a vida e como fez com que Violet saísse do buraco negro em que estava, mesmo que ele estivesse em seu próprio buraco negro, me fez pensar ainda mais em todos os amigos que eu tanto amam e que tanto me fazem bem. O modo como Violet fez com que Finch se sentisse mais confortável na própria pele me fez pensar em como eu tenho pessoas incríveis ao meu redor. E o modo como o livro acaba me fez perceber que existem situações que estão além do nosso alcance, e que tudo bem isso acontecer.

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– Sabe o que gosto em você, Finch? Você é interessante. Você é diferente. E consigo conversar com você. Não deixe isso subir à cabeça.
O ar parece carregado e elétrico, como se tudo – o ar, o carro, Violet e eu – fosse explodir caso alguém acendesse um fósforo. Mantenho os olhos na estrada.
– Sabe o que gosto em você, Ultravioleta Markante? Tudo.

Por Lugares Incríveis é assim: uma narrativa-presente, que te dá Violet e Finch de presente, que te dá momentos felizes de presente, que te faz pensar além do que se espera de presente. É um livro com histórias incríveis, enredo incrível, personagens incríveis. Um pedaço do meu coração ficou naquele livro, e um pedaço de Finch e Violet ficaram comigo. Em uma obra sobre amor, sobre relações – sobre a vida – Jennifer foi capaz de marcar a minha vida para sempre com sua visão sensível e sua narrativa arrebatadora. Daqueles livros que eu indico, empresto e faço propaganda para todo mundo. Mas se prepare: ao mergulhar nas páginas de Por Lugares Incríveis, é impossível voltar a superfície sem ter sido mudado.