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Lochan tem dezessete anos, Maya tem dezesseis. Durante toda a vida, eles foram os melhores amigos um do outro, o apoio que precisavam para passar pelas experiências sem enlouquecer. Isso porque, com tão pouca idade, eles já tinham responsabilidades muito maiores que a de muitos adultos. Filhos de um pai que os abandonou e de uma mãe alcoólatra, instável e irresponsável, Lochan  e Maya cuidam de seus irmãos mais novos como os pais que eles nunca tiveram, de fato. E isso não é sempre fácil, ainda mais com um irmão em plena adolescência e duas crianças pequenas demais para entender o que acontece, mas grandes o bastante pra saber que a falta de um pai e uma mãe na vida delas não é natural.

Não posso dizer. Não posso dizer logo à você. Durante a minha vida inteira você foi a única pessoa com quem pude me abrir. A única pessoa que eu sempre podia contar que compreenderia.

PROIBIDO TABITHA SUZUMA2

Eles se dividem entre a escola e a vida em casa, sempre fazendo de tudo para manter tudo em ordem, sempre tentando tapar todos os buracos que seus pais deixaram em suas vidas. Colocar Willa e Tiffin, os irmãos mais novos, de 5 e 8 anos, para fazer suas tarefas, estudar, tomar banho, comer, manter a paz com Kit, um adolescente de 13 anos que já tem idade o bastante pra saber que os pais são pessoas horríveis por os abandonar, mas imaturo demais para não saber contornar a situação junto com os irmãos e manter a casa sempre em dia não são tarefas fáceis. Ainda mais considerando que seus rendimentos na escola tem que ser exemplares, que as crianças não podem faltar aula e que eles não podem se meter em nenhum tipo de problema. Tudo isso para que o serviço social não apareça os separem. Porque se tem uma coisa que Lochan e Maya entendem, é que a família deve permanecer unida.

Então é isso, a sensação depois de uma longa e sofrida luta – perder a batalha e finalmente enlouquecer.

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Lochan é extremamente inteligente, sempre obtêm os maiores conceitos na escola e nunca deu problemas. Ele também tem um coração generoso e uma calma gigantesca para lidar com todos os problemas que surgem a sua frente. Só que ele não consegue se comunicar com as pessoas de fora da família muito bem. Ele pode fazer textos brilhantes, ele consegue gabaritar todas as fórmulas, ele pode fazer o jantar todas as noites e fazer com que as crianças comam os legumes. Mas falar com outras pessoas é algo terrivelmente difícil para ele. Ele tem crises de pânico, ele trava, e simplesmente não consegue aguentar toda a atenção em cima dele. Para alguém que passa a vida tentando se manter invisível, para não ter problemas, isso é compreensível. A única pessoa com quem ele pode conversar, com quem ele se sente bem e a única pessoa em que ele confia é Maya. Ela é seu porto seguro, ela é sua alma gêmea, ela é sua melhor amiga.

Sempre que estou longe de Maya, eu me sinto incompleto… menos que incompleto. Eu me sinto como se não fosse nada, como se não existisse. Não tenho identidade, não falo, nem mesmo olho para as pessoas. A presença delas é insuportável como sempre – tenho medo de que, se prestarem atenção em mim, vão adivinhar o meu segredo.

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Maya é sensível e tenta fazer com que sua vida, tão sofrida desde tão nova, seja um pouco menos ruim. Ela tenta passar para os irmãos mais novos todo o amor que sente por eles, e tenta fazer com que a vida deles seja estável e normal – mesmo que isso seja quase impossível naquelas circunstâncias. Ela divide os afazeres com Lochan, dá atenção aos pequenos e tenta fazer com que Kit seja mais sociável e menos rebelde. Ao contrário de Lochan, ela não tem problemas em se comunicar com todos. Ela tem amigos – mesmo que não confie neles o bastante para compartilhar os detalhes de sua vida pessoal. Lochan é a única pessoa em quem ela realmente confia.

Não aguento pensar que possa ter perdido nossa intimidade, nossa amizade, nosso vínculo de confiança. Ele sempre foi tão mais que apenas um irmão. Ele é minha alma gêmea, meu oxigênio, a razão pela qual eu espero com ansiedade pelo momento de acordar todos os dias. Sempre soube que o amava mais do que a qualquer pessoa do mundo – e não apenas de um jeito fraternal […]

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Dividindo o mesmo teto e compartilhando tarefas e responsabilidades que ninguém deveria ser obrigado a ter, Lochan e Maya são as únicas pessoas que entendem, realmente, pelo que eles estão passando. Ser pai na adolescência era difícil. Ser pai de seus irmãos era mais confuso ainda. Por isso, eles se sentiam mais unidos que dois irmãos seriam. Unidos o bastante para se apaixonarem um pelo outro.

 – […] Não vou deixar que ninguém nos proíba…[…]
– Mas é o mundo inteiro – diz, sua voz um sussurro angustiado. – Como vamos conseguir triunfar sobre o mundo inteiro?

IMG_8983E, mesmo tendo consciência de que ficarem juntos era errado, eles não sabem como não aceitar um amor tão grande em uma vida tão sofrida. O amor deles era muito profundo, muito verdadeiro e muito desesperado. Eles eram duas almas perdidas que só encontraram abrigo um com o outro. Pelo tempo que fosse possível.

– Nesse momento, a única coisa que eu sei é que te amo – Digo em meu desespero contido, as palavras derramando por conta própria. – Eu te amo muito mais do que um irmão. Eu te amo… de todas as formas possíveis e imagináveis.
-Eu também me sinto assim… – Sua voz soa chocada e ferida. – É… um sentimento tão imenso que às vezes acho que vai me engolir.[…]

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Quando Carina,  da Editora Valentina, mandou um e-mail falando sobre Proibido, ela tinha comentado que, quem pudesse, devia pedir o livro sem saber nada sobre ele. Ela pediu para que evitássemos ler sinopses e resenhas, que não víssemos vídeos sobre o livro, para que não tivéssemos nenhum contato mesmo com a história antes de ler. Eu decidi seguir o conselho e evitava absolutamente tudo sobre o livro antes de recebê-lo. Poucos dias antes dele chegar aqui em casa, acabei vendo uma notícia sobre Proibido que destacava bem que o livro era sobre incesto. E eu definitivamente não estava esperando por isso. Na verdade, nem me passaria pela cabeça uma história com esse tema.

Lochan não pode ser meu namorado. Das bilhões de pessoas que habitam o planeta, ele é uma das pouquíssimas que não posso ter. E isso é algo que devo aceitar – mesmo que, como ácido num metal, esteja lentamente me corroendo por dentro.

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*Citações devidamente marcadas para quando eu quiser reler *

Mas Proibido vai muito além desse assunto tão delicado. Ele mostra duas pessoas extremamente altruístas, que fazem de tudo para conseguir manter sua família junto, para conseguir dar um mínimo de normalidade à três crianças que não tem culpa por terem nascido naquele lar problemático. Ele fala sobre como duas pessoas que nunca fizeram nada de errado cometem o maior dos erros por encontrar o amor e aceitá-lo. Mostra como Maya e Lochan lidam com os próprios sentimentos, primeiro separados, depois compartilhando os medos e as alegrias do que sentiam. E, por fim, o que eles precisaram fazer para manter a família unida e seu amor vivo.

No fim das contas, o que importa mesmo é o quanto você pode suportar, o quanto pode resistir. Juntos, não fazemos mal a ninguém; separados, nós definhamos.

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Os personagens não sabem como lidar com o que sentem a princípio. Eles lutam contra, eles tentam ignorar, eles evitam o assunto. Mas, na hora em que o sentimento é forte demais para ficar escondido, eles tem que começar a aprender a lidar com a nova realidade dentro de casa. E, juntos, eles começam a descobrir um lado da vida que eles nunca tinham tido contato antes. No mundo do amor e do relacionamento, os dois eram novatos, e cada experiência era uma descoberta para os dois.

[…]nunca se passou pela minha cabeça que pudesse haver um passo a mais…
Mais sei que é ridículo, absurdo demais até pensar nisso. Nós não somos assim. Não somos doentios. Somos apenas um irmão e uma irmã que por acaso também são os melhores amigos um do outro. É assim que sempre foi entre nós dois. Não posso perder isso, ou não vou sobreviver. 

A escrita de Tabitha Suzuma é inacreditavelmente rica, com uma narrativa fluída e profunda, bem diferente dos livros que estamos acostumados a encontrar nas prateleiras de lançamentos atuais.  Por meio de descrições fiéis que fazem com que as cenas do livro passem como um filme na nossa mente, ela consegue passar ao leitor tudo que os personagens estão pensando, sentindo e o contexto em que eles estão em cada momento.  Ela soube, com delicadeza e sensibilidade, escrever cada uma das linhas que fazem essa história ser maravilhosa, perturbadora e tocante do início ao fim.  Daqueles livros que você ama, que você se desespera com o personagem, que você se alegra com ele e chora com ele. Daqueles livros que você leva pra sempre, no coração, e quer que todos leiam. Porque, mesmo que te estilhace por dentro, ele ainda assim é uma leitura excepcional.